
Até há relativamente pouco tempo, a depressão infantil era um tema pouco abordado na literatura científica, por um lado, porque a infância ainda era considerada uma idade de ouro, por outro lado, porque a depressão na criança aparece de diversas formas e nem sempre sob a forma da tristeza.
Sabe-se que a incidência da depressão nas crianças é bastante grande, mas a presença de afectos depressivos não conduz directamente a um humor depressivo e a uma actividade diminuída, como normalmente acontece no adulto.
Os sintomas que levam a criança deprimida à consulta são frequentemente a instabilidade, a anorexia, queixas somáticas, gaguez, tiques, encoprese, enurese e insucesso escolar na latência. Muitas vezes são crianças vivas, mas que fazem sentir a sua tristeza, estando muito atentas ao terapeuta (a avidez do olhar é características nestas crianças).
A depressão infantil pode revelar-se por inibições, como a gaguez, como por compensações, como o furto, ou por conversão histérica, como a enurese. Ás vezes, revela-se por tristeza manifesta, turbulência e perturbações de conduta.
O roubo nas crianças só se verifica quando no ambiente que elas frequentam esses actos são correntes. Fora destes meios, pode afirmar-se que não há roubo infantil e que este se verifica apenas em casos em que as crianças se sentem carenciadas de afecto, mesmo que aparentemente essa carência não seja manifesta.
De facto, a vivência depressiva assume formas diferentes. Coimbra de Matos faz a distinção entre os seguintes conceitos:
- afecto depressivo e enfermidade depressiva
- momento depressivo e forma de ser depressiva
- fase depressiva e processo depressivo
Sandler e Joffer estudaram crianças deprimidas e falam de uma resposta afectiva depressiva de base – esta resposta é um momento específico de resposta afectiva, mais do que propriamente um síndrome organizado. Tal resposta pode ser de longa ou curta duração e pode ter uma intensidade maior ou menor, podendo surgir em qualquer fase do desenvolvimento da criança. Quando é apropriada à situação, pode ser considerada uma resposta normal; apenas podemos considerá-la patológica quando aparece perante circunstâncias inadequadas ou quando persiste durante um período de tempo mais ou menos longo.
Frequentemente, associa-se a depressão à perda, a qual é um fenómeno bastante complexo do ponto de vista psíquico, diferente segundo o grau de desenvolvimento e as modalidades segundo as quais a criança se consegue organizar. A depressão não é uma consequência necessária da perda – por exemplo, a criança pode deprimir face a uma mãe presente fisicamente, mas psiquicamente ausente. Neste sentido, a depressão não é reacção à perda do objecto, mas à perda do amor do objecto. Segundo uma Psicóloga, em todos os casos de depressão manifesta na criança encontramos uma patologia familiar mais ou menos evidente: pais separados, separações precoces da figura materna, relação dos pais de tipo sado-masoquista e, como regra, núcleos depressivos num ou em ambos os pais.
Para Green, a criança sente uma mudança na interacção e sente-se desinvestida pelo objecto de amor. Coimbra de Matos fala de uma condição depressivante essencial – por um lado, o afastamento afectivo da mãe, por outro lado, a carência de um amor primário envolvente, num período fundamental que são os primeiros dois anos de vida. Outros factores que este autor salienta são o desinteresse, a rejeição e a recusa maternos, que constituem aspectos importantíssimos na organização narcísica da criança.
Uma psicóloga fala de uma correspondência entre o núcleo depressivo na criança e a decepção narcísica da mãe: a criança nunca chega a corresponder à idealização da mãe e o bebé real nunca consegue superar o bebé imaginário. Do nascimento até ao final da latência, a criança vive sempre uma evolução num movimento contínuo do eu, cada vez menos dependente da mãe e do narcisismo materno. A criança vai, então, construindo a sua autonomia e a sua auto-estima.
Segundo esta Psicóloga, a depressão infantil seria uma perturbação na organização do sentimento de auto-estima, perturbação esta que se centra à volta de uma ferida narcísica que tem consequências ao nível funcional do psiquismo. Esta depressão na criança é o eco da depressão na mãe – aquilo que falha nestas crianças é o encontro com a mãe e com o desejo materno, que frustra a criança na sua valorização narcísica. Não há uma mãe-espelho que dê à criança uma imagem favorável de si.
De facto, foi verificado em clínica que estas mães não são abandónicas – o seio está presente, mas o olhar está ausente, ou seja, há cuidados e presença física, mas não há disponibilidade psíquica. As solicitações do bebé são respondidas sem o calor do amor primário. Assim, a imago materna organiza-se mas funciona não como algo presente e contentor, mas como algo distante, inatingível e não envolvente.
A Psicóloga considera que esta imago materna é como um vazio, um nada. A criança deprimida organiza uma imago materna não de mãe abandónica ou persecutória, mas de uma mãe que se deixa olhar pelo bebé, mas a uma distância tal que só parcialmente é introjectada no eu, mantendo-se outra parte como objecto totalmente estranho.
A depressão seria o último e desesperado modo de preservar as pulsões de amor e a esperança de poder amar de novo. Na relação com o objecto, o deprimido funcionaria com um compromisso de amor e de ódio, procurando salvaguardar o objecto da sua agressividade, dirigindo-a para o eu. Por outro lado, a falha de uma verdadeira introjecção identificativa leva a uma introjecção agressiva, mais ou menos maciça do objecto.
Uma parte do eu fica assim detentora de uma omnipotência punitiva sendo a vítima a parte frágil do eu. Esta é também a parte saudável, a que procura sobreviver, identificada pelo sofrimento e pela culpabilidade consciente, cuja função seria também a de acalmar a culpabilidade inconsciente. Assim, o deprimido procura incessantemente provas de amor, mostrando-se incapaz de estar só.
Procurando a imagem ideal, defende-se da realidade do objecto, com o receio de o apreender na totalidade – a relação é sempre parcial e frustrante.
Desde o nascimento, o estado ideal de bem estar implicaria uma constância do bom objecto interno. A criança deprimida, não tendo um bom objecto totalmente interiorizado, crê-se obrigada a interiorizar um mau objecto. A depressão na criança nem sempre aparece sob a forma de tristeza manifesta.
A tristeza está lá, mas a criança avança com defesas contra ela. Assim, as queixas podem ser diversas, também porque os pais dificilmente admitem a tristeza nos filhos. Neste sentido, a sintomatologia manifesta é variada – instabilidade, enurese, insucesso escolar na latência, anorexia, tiques, etc. Muitas vezes, não são crianças apáticas, mas vivas e mexidas; no entanto, fazem sentir a sua tristeza interior, sobretudo pelo olhar e pela ausência de sedução.
A criança não se queixa objectivamente da sua tristeza, na medida em que não lhe é socialmente permitido estar triste; a expressão da tristeza só chegará mais tarde, no seio da terapia. Por vezes, a forma que a criança tem de apresentar a sua tristeza é muito exuberante e mesmo paradoxal. Neste sentido, o sofrimento depressivo na criança implica uma atitude peculiar da parte do terapeuta: capacidade para estar com a criança, para intuir e compreender o que a criança sente, ou seja, tudo se traduz numa capacidade de rêverie muito semelhante à que se espera de uma mãe suficientemente boa.
Organização Estrutural e Vivência Depressiva
Do nascimento à latência, a criança vive e decide também a sua evolução num movimento contínuo do eu em que a dependência do narcisismo da própria mãe deve ser decrescente. O bebé deve ser confirmado e valorizado narcisicamente ao longo desta trajectória, até à integração do narcisismo na auto-estima normal, através das identificações sucessivas e da formação do ideal do eu como parte do superego.
Cada nível estrutural dá origem a núcleos depressivos específicos e característicos:
- nível oral – o bebé não consegue manter a integridade do seu narcisismo dada a intensidade do conflito estético
- núcleo primário – há já um eu corporal e psíquico coerente, separado da mãe, mas desvalorizado pela vivência negativa da experiência de separação e individuação (falha na organização anal do eu e do self grandioso)
- núcleo fálico – predomina na criança a vivência sistemática de um sentimento de submissão ao poder fálico materno, enquanto que a figura paterna não funcionou como reparadora (ferida falo-narcísica)
- núcleo depressivo edipiano neurótico – reacção depressiva face à exclusão, que se combina com a angústia (de gerações, da cena primitiva)
Depressão Precoce
A depressão ao nível oral seria uma primeira decepção que põe em causa a continuidade da evolução do eu, pela constituição de um narcisismo negativo, com bloqueio da organização mental, da capacidade alucinatória da realização do desejo e do investimento objectal.
A defesa activa do bebé seria a resposta pelo desinteresse, a atonia depressiva. Esta apatia e vazio são aparentes, já que escondem uma enorme avidez do objecto, que dá conta da esperança de um reencontro. Esta avidez observa-se na atenção expectante a certos sinais externos específicos, que assinalam a presença de um objecto disponível.
A reparação deste núcleo depressivo precoce deixará a sua marca, funcionando como possível ponto de fixação em personalidades narcísicas, modelado em novas formas pelas vicissitudes da evolução anal e fálica do eu.
Depressão Primária
Este nível de evolução do eu está ligado às flutuações da economia narcísica da criança, em vias de libertar-se da dependência do objecto primário através de ensaios crescentes de afastamento e reaproximações sucessivas. Pressupõe-se uma estruturação relativa do objecto interno e uma constância relativa deste imago. A boa separação-individuação supõe um equilíbrio narcísico na personalidade materna.
A depressão primária seria, então, a vivência de uma insuficiência narcísica do eu nesta fase, tomando a forma de uma ferida ou vazio interior que vai presidir à evolução do movimento anal-fálico.
Não há self grandioso, mas deplecção narcísica, isto porque a tentativa de afirmação do eu equivale a uma ruptura relacional e perda do amor da mãe.
A mãe não confirma narcisicamente o eu do bebé, logo, inibe-se o desejo de exploração do mundo, em simultâneo com a falha do erotismo anal – o prazer do controlo das fezes, equivalente ao poder do eu. Não há ambivalência, mas submissão. Não se aprende a conciliação – fase da boa distância objectal, na vida relacional futura, o meio caminho entre a afirmação narcísica da pulsão e a relação objectal.
Não podendo viver-se grandioso, o eu vai ter que reparar o negativo do seu self pela desistência ou pela retirada regressiva (psicose). A confirmação narcísica é, porém, sempre incompleta e, para salvaguardar o seu narcisismo, o eu infantil vê-se obrigado a projectá-la numa figura idealizada – suporte do eu ideal. Este primeiro objecto ideal é de origem materna e é ainda na dependência do imago primário que vemos o núcleo depressivo primário – o eu da criança só pode amar se for amado pelo objecto ideal. A falha desta imagem especular materna, suporte das projecções narcísicas ideais,impede a estruturação básica do sentimento de auto-estima.
Por vezes, é a figura materna que utiliza a criança como alvo das projecções da sua raiva narcísica ou do seu narcisismo negativo, apesar do apelo reparador que possa estar contido na avidez e esperança de amor da criança deprimida. Esta só pode, então, ver-se em espelho na sua própria ferida narcísica, com um sentimento de insuficiência, na comparação com o seu modelo ideal inatingível.
A depressão primária pode ainda aparecer sob a forma de:
- depressão anaclítica – organizada ao nível anal, em luta pela independência em relação ao objecto primário e com grande fragilidade narcísica expressa na inibição, submissão, somatizações frequentes, actings agressivos
- depressão branca – a relação de objecto é esvaziada de afecto e vivida como uma frustração
Depressão Fálica
O núcleo depressivo fálico liga-se a outra fase da trajectória evolutiva, relacionada com uma organização estrutural triangular e pré-edipiana. A tarefa principal desta fase é a construção positiva de um poder fálico, que necessita de uma valorização narcísica pelos objectos parentais, pela identificação introjectiva sucessiva do falus materno e do falus paterno, que, integrados no eu, dão origem ao narcisismo fálico.
O núcleo fálico da depressão poderia compreender-se como uma vivência de insuficiência do seu próprio valor ligado ao sexo, em que está em jogo a falha do investimento narcísico de ambos os pais.
O eu clivado não é valorizado pelo ideal do eu materno ou paterno e o eu constata a sua enorme imaturidade face ao poder atribuído ao objecto ideal. A agressividade é, muitas vezes, manifesta e deve ser entendida como uma ab-reacção pulsional.
Depressão Neurótica
A neurose infantil acarreta uma inevitável vivência depressiva, quer seja manifesta, quer seja latente, quer seja denegada em condutas maniformes. O núcleo depressivo neurótico existe sempre na evolução normal.
Na depressão neurótica propriamente dita, todas as hipóteses de restabelecimento narcísico da integridade perdida falharam sistematicamente nos diferentes níveis da sua maturidade pulsional.
Na menina, o pai não a valoriza narcisicamente, logo, o narcisismo especular feminino – base de uma auto-estima positiva que facilita a renúncia edipiana – não se organiza. No rapaz, o pai não aceita a rivalidade edipiana, logo, não confirma a capacidade do rapaz para agradar às meninas – e não só à mãe – o que dificulta a orientação para uma nova conquista objectal.
Evolução Depressiva
Trata-se da continuidade evolutiva de uma estrutura de base em que sempre dominou a deficiente organização narcísica. A criança arrasta-se numa luta permanente contra um agravamento depressivo, evitando decepções narcísicas que a possam descompensar.
Processo Terapêutico
Geralmente, onde há depressão manifesta, encontramos uma patologia familiar mais ou menos evidente: separações precoces entre a mãe e a criança, relações conjugais muito complicadas, mães ou pais deprimidos, etc. Na terapia, o trabalho com os pais é tentar conciliar o filho imaginário com o filho real, mostrando aos pais as características e capacidades do seu filho, isto é, permitindo que os pais vejam o seu filho através dos nossos olhos.
Neste processo, o pai é um auxiliar precioso, na medida em que a decepção narcísica aparece mais frequentemente na mãe; assim, o processo de reparação narcísica da mãe e da imagem que esta mãe tem do filho passa muitas vezes pelo pai.
Reparar o narcisismo e dar esperança são as duas tarefas fundamentais – a reparação vai predominar sobre as pulsões agressivo-destrutivas e a esperança vai dominar sobre a decepção e o desespero. O amor vai finalmente predominar sobre o ódio e a raiva por não ter sido suficientemente amado.
A criança deprimida ainda não encontrou um objecto suficientemente estável – o trabalho terapêutico tem a ver com o desejo de um encontro objectal que não falhe, ao contrário de todos os outros encontros quer a criança foi tendo ao longo da vida. Este desejo de encontro nem sempre é claro (por vezes, é bloqueado pelo receio de que este encontro também falhe), mas aparece no olhar expectante, mesmo quando a criança apresenta uma atitude maniforme ou de oposição – é um olhar perdido e ávido, mas ao mesmo tempo receoso.