
Os determinantes patogénicos que estão envolvidos nas neuroses dividem-se naqueles que uma pessoa traz consigo para a sua vida – constitucional – e os que a vida lhe traz – acidental.
As funções psíquicas envolvidas nestas disposições têm de passar por um longo e complicado desenvolvimento para chegar ao estado adulto normal, sendo que estes desenvolvimentos nem sempre se realizam serenamente. Quando a função se apegar a um estádio anterior resulta num “ponto de fixação”, para o qual a função pode regredir se o indivíduo adoecer devido a perturbações externas. Assim, as nossas disposições são inibições de desenvolvimento.
As formas histéricas de doença podem ser observadas mesmo na mais primitiva infância; a neurose obsessiva apresenta os primeiros sintomas no segundo período da infância – 6 e 8 anos.
Outras psiconeuroses
As outras psiconeuroses, a paranóia e a demência precoce – as parafrenias – aparecem depois da puberdade e durante a vida adulta. As características de ambos – megalomania, afastamento do mundo dos objectos e dificuldades aumentadas na transferência – levam a concluir que a sua fixação disposicional deve ser procurada num estádio de desenvolvimento libidinal antes da escolha objectal ter-se estabelecido, ou seja, na fase do auto-erotismo e do narcisismo.
Isto faz supor que a disposição à histeria e à neurose obsessiva (as neuroses de transferência propriamente ditas), que produzem os seus sintomas bem cedo na vida, reside em fases posteriores de desenvolvimento libidinal.
Caso: paciente que fora feliz até ao momento em que soube que não poderia ter os filhos com que sempre sonhara. A histeria de ansiedade com que reagiu a esta frustração correspondia ao repúdio de fantasias de sedução em que o seu desejo de um filho encontrava expressão. O marido reagiu neuroticamente fracassando pela primeira vez nas relações sexuais. A esposa acreditou que ele se tinha tornado permanentemente impotente e produziu os primeiros sintomas obsessivos no dia anterior ao regresso de uma viagem que ele havia feito.
O conteúdo da sua neurose obsessiva era uma compulsão por lavagem e limpeza, bem como medidas protectoras extremamente enérgicas contra danos graves que pensava que outras pessoas tinham razão para temer dela, ou seja, formações reactivas contra os seus próprios impulsos anal-eróticos e sádicos. A sua necessidade sexual foi obrigada a encontrar expressão nestas formas.
Quadro esquemático do desenvolvimento libidinal
Fase do auto-erotismo
Os instintos parciais do indivíduo buscam a sua satisfação dos desejos do corpo. Os impulsos de ódio e erotismo anal desempenham um papel extraordinário na sintomatologia da neurose obsessiva, onde os instintos componentes em apreço assumiram a representação dos instintos genitais, dos quais foram percursores no processo de desenvolvimento.
Introduzindo aqui uma linha biológica de pensamento, não se pode esquecer de que a antítese entre masculino e feminino, que é introduzida pela função reprodutora, não pode ainda estar presente no estádio da escolha objectal pré-genital. No seu lugar encontra-se a antítese entre tendências com objectivo activo e com objectivo passivo, a qual se torna depois firmemente ligada à existente entre os sexos.
A actividade é suprida pelo instinto comum de domínio, que se chama de sadismo quando está ao serviço da função sexual.
Uma acentuação do erotismo anal no estádio pré-genital de organização deixa uma pré disposição significante ao homessexualismo, nos homens, quando o estado seguinte da função sexual, a primazia dos órgãos sexuais é atingido.
No campo do desenvolvimento do carácter podem encontrar-se as mesmas forças instintuais que encontramos em operação nas neuroses. Uma nítida distinção das duas é necessária pelo facto de que o fracasso da repressão e o retorno do reprimido – peculiares ao mecanismo da neurose – estão ausentes na formação do carácter. Nesta, a repressão não entra em acção ou então alcança sem dificuldades reactivas e sublimações.
Assim, os processos da formação de carácter são mais obscuros e menos acessíveis à análise que os neuróticos.
Quer na mudança de carácter (que ocorre por exemplo quando uma mulher entra menopausa) quer na neurose obsessiva o trabalho da regressão é aparente.
Mas, na primeira, encontra-se uma regressão completa a seguir a repressão que ocorreu suavemente, na neurose há conflito, um esforço para impedir que a regressão ocorra, formações reactivas contra ela e formações de sintomas produzidos por conciliações entre os 2 lados opostos, bem como uma divisão das actividades psíquicas em algumas que são admissíveis à consciência e outras que são inconscientes.
A hipótese levantada pelo autor sobre a organização sexual pré-genital é incompleta sob dois aspectos: em primeiro lugar, não leva em consideração o comportamento de outros instintos componentes, contentando-se em acentuar a primazia do sadismo e do erotismo anal. Em segundo, como se sabe, a disposição desenvolvimental a uma neurose só é completa se a fase do desenvolvimento do ego em que a fixação ocorre é levada em consideração, bem como a libido, sendo que o autor apenas se relacionou com esta última.
Uma hipótese levantada é a de que possa ser incluída na neurose obsessiva uma ultrapassagem cronológica do desenvolvimento libidinal pelo desenvolvimento do ego.
Uma precocidade deste tipo tornaria necessária a escolha de um objecto sob a influência dos instintos do ego, numa altura em que os instintos sexuais ainda não assumiram a sua forma final, e uma fixação no estádio da organização sexual pré-genital seria assim abandonada.
Se considerarmos que os neuróticos obsessivos têm de desenvolver uma supermoralidade para proteger o seu amor objectal da hostilidade, poder-se-à considerar um certo grau desta precocidade de desenvolvimento do ego como típico da natureza humana.
Resta para a histeria uma relação íntima com a fase final do desenvolvimento libidinal, que se caracteriza pela primazia dos órgãos genitais e pela introdução da função reprodutora.
Na neurose histérica, esta aquisição está sujeita à repressão, que não implica regressão ao estádio pré-genital.
Uma outra regressão , a um nível mais primitivo, ocorre também na histeria. A sexualidade das crianças do sexo feminino é dirigida a um órgão masculino (o clitóris), sendo que essa sexualidade masculina tem de ser abandonada e a vagina tem de ser o órgão dominante. Na neurose histérica é muito comum que esta sexualidade masculina reprimida seja reactivada e que a luta defensiva por parte dos instintos egossintónicos seja dirigida contra ela.