
Fala-se de doença psicossomática face a doenças somáticas multicausais, influenciadas por factores psicológicos. Os acontecimentos psicológicos actuam como parte da causalidade destas doenças, quer no desencadeamento, quer no agravamento da doença.
Compreensão da doença psicossomática
De uma maneira geral, o que acontece é que determinadas emoções ou afectos ficam retidos no psiquismo do sujeito, fazendo com que este não aceda a nem elabore tais afectos.
Isto mantém o organismo num estado de tensão que vai facilitar o desenvolvimento de perturbações psicossomáticas.
Um dos afectos frequentemente em jogo nestes casos é a raiva. A agressividade contida e bloqueada dentro do sujeito não é dirigida a nenhum objecto concreto, tendo o sujeito escassa consciência da sua existência. Assim, no caso do sujeito psicossomático, a agressividade retida não encontra descarga.
Outro afecto importante é a depressão, que afecta os mecanismos fisiológicos, nomeadamente os mecanismos imunitários.
Se o afecto depressivo não é reconhecido, vai ficar retido no psiquismo do sujeito, o que se vai reflectir no funcionamento somático. Segundo A. Coimbra de Matos, esta é uma depressão falhada, que não se vive, não se desenvolve, não chega a organizar-se e, portanto, não se resolve. Tudo se passa como se não houvesse um aparelho psíquico para sentir os sentimentos, logo, estes não são mentalizados, escoando-se na vertente somática como estados corporais.
A falência na elaboração dos afectos é o facto essencial – o sujeito apenas tem, da experiência frustrante, um rasto somático.
Muitos pacientes psicossomáticos têm um traço depressivo, específico e típico, mas que se distingue da habitual personalidade depressiva pela ausência de abatimento depressivo ou quebra de entusiasmo e vitalidade.
Assim, são pessoas com forte tendência para a idealização objectal. Adaptam-se complacentemente aos desejos do outro e abdicam do desejo próprio, o que é necessariamente depressígeno.
- extensiva ou circunscrita, conforme os casos -, mas sem esperar qualquer retribuição da parte desse objecto. Deste modo, No entanto, a insatisfação não é percebida como estado afectivo – alexitimia – e muito menos reconhecida como estando ligada ao acontecimento insatisfatório, não havendo, portanto, integração afectivo-cognitiva.
Sem esta capacidade de acesso ao sofrimento básico, à vivência da falta, a depressão, não vivida, fica no corpo, estagnada, emperrando o seu funcionamento. «Depressão sem depressão, sem sinais, é um processo crónico de apodrecimento pelo empobrecimento das respostas adaptativas de confronto com as situações indutoras de stress» (Coimbra de Matos).
A não-percepção ou insuficiente percepção afectiva prejudica a regulação relacional e a desregulação na relação introduz turbulência na homeostase, constituindo-se um estado somático de desequilíbrio e agitação. Assim, A. Coimbra de Matos centra a etiopatogenia da doença psicossomática na desregulação da relação e a etiologia na perversão narcísica do objecto, que impede o desenvolvimento do aparelho para sentir os sentimentos.
O sujeito desenvolve-se por identificação maciça ao objecto ideal pré-concebido, o que acarreta duas consequências:
1. não tem identidade própria
2. não conhece o objecto real
A identidade própria funde-se ou molda-se à identidade do outro, logo, estes sujeitos são muito dependentes, muito inseguros.
A incapacidade para reconhecer a malignidade do objecto leva à incapacidade para intuir os aspectos negativos e diferentes do outro e à incapacidade de empatia e de reconhecimento dos estados afectivos próprios. Há, então, uma denegação de si mesmo, uma denegação da subjectividade, da realidade afectiva.
O sacrifício próprio do qual estes sujeitos pouco ou nada se apercebem é intenso e permanente, todavia, o que se desgasta é o corpo, ao qual são solicitados esforços desmedidos. A identidade própria funde-se ou molda-se à identidade do outro, logo, estes sujeitos são muito dependentes, embora essa dependência seja pouco notada, porque é encoberta pelo comportamento de cuidar dos outros. Por outro lado, estes são sujeitos mas a insegurança está disfarçada pela adesão à ordem instituída e às convicções prevalecentes no meio.
Outro mecanismos que pode levar à doença psicossomática é a incapacidade fantasmática – as pessoas com este tipo de funcionamento têm pouco acesso à fantasia e ao devaneio. É o que A. Coimbra de Matos chama o sonho falhado, que provoca grandes dificuldades ao nível da imaginação. De facto, os sujeitos mais próximos do funcionamento normativo utilizam a imaginação para encontrar novas soluções para a vida e alternativas para fugir à monotonia e à rotina, ao mesmo tempo que a usam como ajuda para tolerar a frustração – é no espaço do sonho que a transformação se processa.
Os sujeitos psicossomáticos adaptam-se mal a situações novas – face a situações de impasse, o automático encrava e o pensamento não consegue encontrar saídas alternativas.
A capacidade de sonhar e a imaginação criativa permite-nos uma adaptação mais diversificada e mais activa. Os sujeitos com funcionamento psicossomático tiram, portanto, menos prazer da existência e levam uma vida mais banal. Entregando-se à frustração e ao tédio, o indivíduo sujeita-se e resigna-se às circunstâncias, adaptando-se passivamente. Daí que os doentes psicossomáticos sejam sujeitos hiperadaptados à realidade, que, para eles, é uma realidade descolorida e desinteressante. A necessidade de adaptação impõe uma subtracção ou desistência do prazer de viver, relacionar-se e comunicar. Assim, não há futuro nem passado emocionais – é um mundo de memórias despidas de afecto. As próprias representações imediatas do presente não têm halo emocional, resultantes que são de experiências vividas com escassa qualidade sensorial / sensual.
O desligamento afectivo é compensado / substituído pela ligação pragmática. É o “delírio” e a omnipotência da razão. A retracção da líbido acompanha-se por uma inibição da actividade lúdica, assim como de toda a acção conducente ao prazer relacional (no acto e/ou na fantasia). Este comportamento de inibição da fantasia, do desejo e da busca de prazer vai no sentido de uma conservação de energia como resposta ao stress. Alheias à vivência depressiva, as relações destas pessoas são sempre superficiais, pouco empáticas, utilitárias. Porém, a economia do afecto redunda no não abastecimento narcísico e no agravamento do traço depressivo. Forma-se um círculo vicioso de acentuação da depressividade e da existência banal, porque lhe falta a distinção dos afectos.
Quando o indivíduo não se consegue satisfazer nas suas relações com os outros, pode adoptar várias soluções: pode fugir para a fantasia, pode adaptar-se ou pode centrar a sua preocupação no corpo. Se as relações objectais não são suficientemente satisfatórias, o sujeito investe excessivamente em si próprio e no seu corpo. A saúde é o silêncio dos órgãos e a despreocupação cria esse silêncio; pelo contrário, se a atenção do sujeito está centrada sobre os sinais corporais, a corporalidade ganha uma dimensão desmesurada, o que acontece nos sujeitos hipocondríacos. O corpo constitui-se como objecto de investimento e de preocupação porque não há objectos-pessoas que suportem o investimento libidinal. Em alguns sujeitos, os problemas corporais são uma forma de captar a atenção dos outros (benefícios secundários), tal como aparece na conversão histérica. Na doença psicossomática propriamente dita, não existe esta dimensão.
Outro aspecto importante na doença psicossomática é a inibição da acção e a não exposição às condições normais da vida. Por outro lado, podemos falar de uma atitude psicossomática – face a uma doença, os técnicos de saúde devem ter a consciência de que os fenómenos psicológicos vão influenciar a evolução, a duração e o sofrimento que a doença comporta.
Com frequência, encontramos no período anterior ao despoletar da doença psicossomática uma situação vivencial negativa para o sujeito, que corresponde a períodos longos ou relativamente curtos de acontecimentos indutores de stress com repercussões emocionais surdas ou ensurdecidas. Com o recalcamento da emoção, o conhecimento do evento traumático é esbatido e o significado lesivo para o sujeito é ignorado, silenciado ou desqualificado.
A realidade negada do outro acaba por adquirir tal evidência que perfura o escotoma do sujeito – é a queda da grande ilusão que sustenta toda a vida do sujeito: um acontecimento real impõe a realidade até então negada e verifica-se o acontecimento psicológico da grande e terrível desilusão.
O impensável surge e torna-se real sem ter passado pelo possível, pela fantasia ou pelo sonho, logo, não pode ser pensado: os sinais de alerta (ansiedade ou depressão) não são processados pelo aparelho mental. A surpresa e a desorganização provocada é tal que a tendência é para o recalcamento e a depressão, consequência lógica da desilusão, não se desenvolve. É a depressão falhada, que não cumpre a função de elaborar a perda, reorientar o investimento, transformar a atitude e as respostas relacionais. A raiva sem destino externo emperra e perturba o funcionamento mental, funcionamento esse já anteriormente desorientado e apático. Assim, a raiva cria zonas de turbulência, o que se vai manifestar ao nível somático, com alteração das funções de defesa e/ou de cognição biológica.
Crianças cujas mães não têm capacidade de «rêverie» têm grandes dificuldades em desenvolver a sua própria capacidade fantasmática, o que pode conduzir ao desenvolvimento de um funcionamento psicossomático alexitímico, mas esta não é a única origem de tal funcionamento. O que faltou ao paciente psicossomático foi uma relação continente, um útero mental, o funcionamento alfa da mãe, capaz de responder, dando sentido e significado, às angústias/perguntas e aos afectos/pedidos do bebé. Sem esta resposta é o terror sem nome e o desamparo. Falhou, então, o processo dialéctico continente/conteúdo, em que o sujeito se gera, despertando a capacidade/actividade geradora do objecto. O sujeito ficou aquém da subjectividade porque não viveu a experiência mútua e dialéctica da inter-subjectividade.
Desprezado e não investido como sujeito de sonho, não sonhado mas tão só cuidado, o sujeito psicossomático «não se considerará a si próprio um animal que sonha, gosta de sonhar, quer sonhar, e não será seguramente um sonhador», ficando amputado dessa capacidade. O núcleo da perturbação psicossomática está, portanto, na incapacidade para mentalizar quer a dor, quer a esperança e a ilusão. O sonho falhado deixa apenas o pensamento operatório, um subproduto da imaginação, e uma proto-mente, com um formato plano, uma opacidade emocional, uma proximidade humana impossível.
«Nascemos de um sonho, vivemos no sonho, morremos quando o sonho acaba E a cura analítica não é mais do que a abertura ao sonho, acaba quando o paciente sabe sonhar.» (A. C. de Matos)