
A palavra Depressão é, normalmente, associada à tristeza. Diz-se de quem está triste, que está deprimido, tomando, desta forma, a parte pelo todo, um único afecto pelo estado geral do indivíduo. Tal relação é errónea, pois a variação do humor apenas se torna significativa num determinado conjunto de sintomas, caso contrário poderá estar relacionada com outros estados físicos e psiquicos, sem relação com a depressão.
Por outro lado, a depressão ou o estar deprimido, não significa de imediato, que determinada pessoa esteja a sofrer uma perturbação grave da sua estabilidade psicossocial, podendo antes encontrar-se a atravessar um período não só inevitável como necessário à sua evolução normal.
Bowlby sugeriu que a depressão, como estado de espírito ocasionalmente experimentado pela maioria dos indivíduos, é uma consequência inevitável de um momento em que o comportamento se desorganiza, como por exempo na perda, e que resulta da cessação do intercâmbio do indivíduo (em pensamento ou acção) com o mundo que o rodeia, persistindo até ao momento em que consiga estabelecer e organizar novos padrões de intercâmbio em direcção a novos objectos ou objectivos.
O quadro clínico da Depressão é caracterizado por depressão de humor (com sentimentos de tristeza, pesar, irritabilidade mal humorada – particularmente nas depressões que cursam com ansiedade –, apatia, podendo atingir o grau de anestesia afectiva), lentificação psicomotora (a nível psiquico caracteriza-se por inapetência para a acção ou decisão, diminuição da atenção/concentração e da memória, empobrecimento e lentificação do curso ideativo, com conteúdos monotemáticos e aumento do período de latência; ao nível motor, caracteriza-se por hipoactividade e fadiga generalizada e permanentemente, não obstante nos casos de depressão ansiosa se verificar hiperactividade e agitação) e auto-desvalorização (manifesta-se por diminuição da auto-estima, sentimentos de inferioridade, culpa, podendo mesmo atingir formas delírantes).
De acordo com a perspeciva psicanalítica de autores como, K. Abraham, S. Freud, M. Klein e Michael Balint, a reflexão sobre a depressão passa, necessáriamente pelo estudo dos estádios mais precoces do desenvolvimento da criança, do tipo de relação de objecto que ela estabeleceu, da forma como atravessou diversas etapas da sua evolução, pelo estudo, no fundo, do que construiu dentro de si e que vai, de algum modo, determinar e influenciar a sua existência futura como ser socialmente integrado.
Estrutura da Depressão
Existem 3 aspectos essenciais na estrutura da depressão:
1- A Dependência Oral-Anaclítica
2- A Insuficiência de Compleição Narcísica
3- A Severidade do Super-Eu
A Dependência Oral-Anaclítica
- O tipo de relação que o deprimido cria é de dependência face a um objecto;
- Esse objecto é simultaneamente um objecto provisor (objecto oral) e protector (objecto anaclítico que apoia, que protege)
- O padrão de relação é de dependência infantil;
- Os sujeitos com estilo relacional depressivo, ao longo da sua vida vão procurar ter alguém que os cuide, que os proteja;
- Nas personalidades depressivas mais graves (ex: melancolia) esta dependência relacional adquire um cariz simbiótico – próximo da esfera psicótica.
Tipos relacionais na organização depressiva
- Em todos estes estilos relacionais não existe uma genitalidade adulta:
- A relação com o objecto não é no sentido de criar/construir algo. Mas sim de o objecto servir para suprimir as necessidades do sujeito (de ser cuidado e protegido).
- Relações em que exista reciprocidade ainda que não completa. Em que o depressivo não ousa exigir o afecto e em que o afecto que lhe é dado fica aquém do que ele desejaria. (relação de objecto característica da Depressividade Neurótica).
- relações pessoais de complementaridade elementar do tipo: dominador/dominado ou explorador/explorado (conforme o predomínio narcísico ou masoquista)
- personalidades depressivas do tipo melancólico onde predominam relações de cariz simbiótico/adesivo
Portanto, o deprimido cria um estilo relacional em que:
- o amor é captativo (este amor captativo visa a satisfação narcísica que no entanto, não alcança).
- Existe uma vinculação infantil
- Aderência ao objecto
- Necessidade de um eu auxiliar
Na vivência relacional do depressivo paira:
Geradores de Ansiedade Depressiva
- o medo do abandono afectivo
- o medo da perda presencial do objecto
- o medo do castigo e/ou humilhação
Esta expectativa negativa nas relações impede:
- a progressão genital e faz com que haja regressão e fixação pré-genital
- inibe os comportamentos de Autonomia
- ( a falta de confiança no amor do objecto ou dos objectos impede a construção relacional adulta).
Na estrutura do depressivo existem simultaneamente:
(imagens objectais idealizadas no sentido da perfeição/pureza/justiça)
- Ideias de inferioridade
- Ideias de culpabilidade
- Um auto-conceito diminuído
Assim, as auto-representações de inferioridade e de culpabilidade em confrontação com as imagens objectais idealizadas resultam no agravamento das primeiras por comparação.
Progressão genital impossível, regressão/fixação pré-genital confirmada.
Michael Balint, fala da “falha básica” que se instala nas fases formativas mais precoces do indivíduo, anteriores ao coplexo de Èdipo, quando existe uma discrepância entre as necessidades biopsicológicas do bebé e o afecto que lhe é proporcionado em momentos relevantes. As causas da discrepância podem tanto ser congénitas, relativas a um bebé com excessivas necessidades biopsicológicas (por doença física ou mental grave), como ambientas, por cuidados insuficientes ou meio superprotector.
O designativo de “falha” surge porque, em primeiro lugar, muitos dos seus pacientes empregam essa palavra. “o paciente diz que sente que existe uma falha dentro de si, uma falha que precisa de ser corrigida. É sentida como uma falha, não complexo, conflito ou situação”.
Em segundo lugar, porque com frequência os pacientes de Balint lhe referem que sentem “que essa falha foi provocada porque alguém falhou ou descuidou”.
Por último, porque as pessoas que nestas circunstâncias procuram ajuda terapeutica, apresentam uma grande angústia, que se traduz por um pedido/exigência desesperada de que o analista agora não falhe.
A Insuficiencia de Compleição Narcísica
- Deficiência Narcísica, baixa auto-estima;
- Self Real diminuido, auto-imagem desvalorizante
É também o olhar narcíseo, sobre si próprio, claro e lúcido do espelho plano, que não deforma a imagem, que caracteriza a maturidade e vacina contra a depressão. Nesta é o espelho convexo (que diminui) ou côncavo (defesa megalómana).
- No depressivo existe um Narcísismo Dependente, ou seja, a auto-estima que se alimenta do olhar do outro.
- Este Narcisismo não chega a transformar-se num Narcisismo Autarcico; auto-governado.
- O olhar do depressivo sobre si próprio está diminuido/deformado _ Impotência Depressiva.
- A auto-imagem está desinvestida (a auto-imagem mantém-se através de 2 coisas: relações valorizantes (ser amado pelos outros) e experiências de sucesso).
- O depressivo tem um narcisismo dependente com o locus externo.
A Severidade do Super-Eu
- O Super-Eu depressivo é severo, implacável, castiga a transgressão.
- O objectivo interno está transformado em Instância crítica _ o que impede o Eu de se expandir/desenvolver.
- Este Super-Eu é precoce, maioritariamente de origem pré-edipiana (na depressão de tipo melancólico o super-eu é sobretudo de origem oral).
- Este Super-Eu é muito central/nuclear. É de natureza predominantemente materna, ou seja, é construido na relação com o objecto primário.
- Como é um super-eu precoce, pré-edipiano está muito próximo do Eu.
- Existe portanto, alguma confusão entra Ele e o Self.
Menor Regressão para Maior Regressão
- Personalidades Neuróticas Depressivas
- O Super-Eu ainda que severo é menos cruel e a sua acção é restrita à Moralidade Genital (tudo é permitido excepto o que é expressamente proíbido, tabus do incesto, etc.)
- Depressões da esfera da Neurose Obsessiva (origem sádico-anal) a acção do super-eu revela-se na Moralidade Esfincteriana (tudo é proibido excepto o que é expressamente permitido).
- Personalidades Depressivas do tipo Melancólico – o super-eu é mais cruel/ mais limitativo. De origem Oral (líbido e agressão escondem-se da boca, dentada que morde)
No entanto, de mão dada com este Super-Eu castigador está um Ideal do Eu de exigência extrema – que visa a perfeição.
Este Ideal de perfeição é algo que o depressivo procura arduamente atingir. Acredita mesmo que o pode atingir (segundo, Coimbra de Matos há uma espécie de procura de Santidade).
O depressivo é o objecto narcísico dos pais, ou seja, foi investido pelos pais da missão de os salvar da sua própria imperfeição, tendo de para isso conseguir, ser ele o perfeito (é a sua ilusão) – o depressivo está prisioneiro do perfeccionismo.
Este esforço no sentido da perfeição leva a que o depressivo consuma imensa energia libidinal para recalcar a agressividade – do que resulta o declínio da energia libidinal.
A criança que viveu uma fase oral insatisfatória, frustrante dos seus desejos, traz consigo uma lacuna na satisfação das suas necessidades básicas, apresenta uma grande falta de confiança e uma atitude apreensiva face à vida que, na pessoa da sua mãe, lhe negou o conforto, a satisfação que ela necessitava ou desejava.
Por outro lado, tenderá a ser uma pessoa mais curiosa, no sentido de observar e procurar mais interesses, como que buscando algo que lhe traga a gratificação que não teve ou fugazmente experimentou e que, por isso, continua a procurar incessantemente. Terá muita dificuldade em estar satisfeita, saciada, mesmo quando algo lhe é proporcionado; nas palavras de Abraham é como se existisse uma “sucção” permanente, oscilando entre pedidos modestos e exigências ferozes (regressão à fase oral sádica).
Pode-se portanto, afirmar que para Abraham, na fase oral do desnvolvimento da líbido se encontra toda a conduta futura do indivíduo, nomeadamente no tipo de relação de objecto que se irá estabelecer, nos seus interesses, na escolha da sua profissão, etc.
Fase Anal – da imposição de regras de limpeza, a criança, de acordo com Abraham, sofre o primeiro e mais severo ataque ao seu narcisismo – o princípio do prazer cede ao princípio da realidade -, podendo este apenaas ser compensado pela satisfação em agradar, em ser bons para os pais. A criança torna-se limpa por causa destes, satisfazendo-os com a realização das suas excreções conforme lhe foi imposto, numa atitude que o referido autor considerou ser a primeira forma de dar, de presentear.
Numa perspectiva essencialmente narcísica, Coimbra de Matos, salienta que a auto-imagem da criança se organiza a 3 níveis:
- Nível Oral (Oral- Narcísico) – em que o indivíduo é investido e amado enquanto pessoa, como ser humano que é, formando a sua identidade de espécie.
- Nível Anal (Anal- Narcísico) – onde o indivíduo recebe o apreço e o reconhecimento de ter valor e poder;
- Nível Sexual- Narcísico – em que o indivíduo recebe e integra as vivências narcisicas antecedentes, e que, por sua vez, contribui também para a organização e compleição narcísica do sujeito: (chamar-lhe “fálico” resulta de de uma concepção falocêntrica da sexualidade e do papel do social), em que o sujeito se sente bem com a sua imagem sexuada e na sua identidade psicossocial (identiade de género), porque uma e outra foram investidas e apreciadas pelo meio objectal.
Período de Latência – na vertente narcísica do valor próprio, Coimbra de Matos afirma que o recalcamento do mpulso sexual e agressivo, podem, por si só, originar facilmente uma desvalorização da auto-imagem, com efeitos depressivantes tanto mais sentidos pelo jovem, quanto menos eficaz e consequente for a sua capacidade sublimatória.
Adolescência – se até à adolescência o grande suporte afectivo, de segurança narcísica e de amor próprio eram os pais, a partir desta fase do desnvolvimento, esses sentimentos passam a “depender” sobretudo do encontro com o objecto sexual, e nesta relação, do reconhecimento próprio e das suas capacidades e potencialidades sexuais, amorosas e pessoais. O adolescente, portador de carências afectivas e narcísicas precoces – “adolescente deprimido” -, irá estabelecer uma relação com o seu parceiro sexual/amoroso, numa base de grande exigência, de um reconhecimento e apreciação constantes, de um amor sem limites, da necessidade de ser idealizado, ao mesmo tempo que revivência os conflitos com o seu objecto primário. E a este propósito, recordamos uma frase de João dos Santos: “os homens levam a vida a confundir as mulheres com as mães”.
Tipos De Depressão
1) Depressão Amorfa ou Depressão Simples
caracteriza-se por:
- Queda libidinal
- Dependência Anaclítica (dependência protectora)
- Dependência Afectiva
- Falta/Impossíbilidade de maturação genital
- Vazio depressivo por perda do objectal
- Angústia de separação
- Predomina o estilo relacional oral
2) Depressão Narcísia ou Depressão de Inferioridade
caracteríza-se por:
- Sentimentos de inferioridade
- Conflito narcísico: diferença entre a auto-imagem que o sujeito vive como real e o Ideal do Eu ou Eu Ideal (a imagem idealizada e desejada pelo próprio)
- Idealização do outro
- Desidealização próprio
(este tipo de Depressão está sobretudo relacionada com as culturas de êxito).
Falamos de Depressão de Inferioridade ou narcísica quando se encontra predominantemente afectada a “auto-estima, a auto-imagem, a percepção, sentimentos e valorização própria”, em consequ~encia da perda do amor do objecto que o sujeito atribui ao seu menor valor.
Neste sentido vamos encontrar nas várias etapas do desenvolvimento psico-afectivo da criança a origem do menor apreço por si próprio, segundo Coimbra de Matos, sobretudo a partir do final da fase oral.
Muitas vezes este tipo de depressão pode advir de mães, elas próprias inseguras, com deficiências narcísicas que depositam nos seus filhos a maior confiança e esperança de toda a sua enorme necessidade de serem amadas. Vão exigir dos filhos que sejam os melhores, perfeitos aos olhos dos outros e do mundo. Cria-se desta forma uma relação de depend~encia mútua, a mãe que precisa do filho retirando disso imenso prazer narcísico, e o filho que foi ensinado a depender dela porque aparentemente ela lhe dá tudo.
A título de exemplo ilustrativo do que se tem vindo a descrever reproduz-se aqui um breve trecho de uma sessão de análise conduzida pelo Dr. Coimbra de Matos, retirada de um artigo seu:
“Começo agora a ver que foi bem real a inquietação, o desgosto, a pena e a tentativa inconsciente da minha mãe em reter-me junto dela e afastar-me das raparigas na minha adolescência.
Aliás, a verdade vinha-lhe à boca: lembro-me perfeitamente de a ouvir dizer-me – não é que não quiera que cases comigo! No entanto, uma vez que lhe dei um beijo mais quente, (procurei beijá-la nos lábios), sorriu e afastando-me disse: não vês que sou tua mãe?! Mas não me senti, dessa vez, rejeitado.”
“ quando começei a não ser e a não poder ser o objecto de orgulho e da vaidade da minha mãe, ela começou a desinteressar-se por mim, a desprezar-me (faz como quiseres, a mim tanto se me dá, era a sua frase de desdém)”.
Embora este tipo de atitude produza sempre efeitos negativos na personalidade em formação, existe, no entanto, uma fase de desenvolvimento em que o indivíduo é particularmente sensível à desvalorização, esse período siua-se a partir do final da fase anal e início da fase fálica. Como defesa contra esse self diminuido, o indivíduo tende muitas vezes a inflaccionar parcelas ou certos aspectos da sua personalidade (ex: “marrões”).
Estas circunstâncias relacionais geram futuros homens e mulheres que não conseguem estabelecer relações objectais maduras, temendo a presença ou o confronto normal com o rival e desencadeando sentimentos de inferioridade e ciúmes desproporcionados.
“Íamos os dois, a gabriela e eu, de mãos dadas, junto ao mar… Ama´vamo-nos ainda á bastante puco tempo. Era im idìlico romance…, doce e bonito.
Ainda me lembro quando a beijei a primeira vez, e ela chorou. Tinha medo de perder-me disse. Era sincera. E tinha razão, intui fundo o meu temperamento: até aí eu tinha sido um homem abandonante. Mas Gabriela era de uma ternura e dedicação tais, que eu próprio me senti mais capaz de amar.
Sentámo-nos, ao fundo, numa rocha. Conversámos. A dada altura, Gabriela diz:- é tão bom rapaz o xavier! Não se compreende o que fez à Leonor.
Foi como um balde de àgua fria, uma pedrada. Apeteceu-me mandá-la à fava; que fosse para o S. Francisco Xavier! Farto de tipos bons, santos estava eu!”.
Dada a vulnerabilidade narcísica, este tipo de depressivos são muito sensíveis às depreciações ou críticas dos outros, bem como não suportam elogios feitos a terceiros.
Saliente-se que na depressão de inferioridade, o conflito intra-psíquico se desenrola predominantemente em torno da sexualidade, ao passo que na depressão de culpa a problemática fundamental é com a agressividade.
3) Depressão de Culpabilidade ou Depressão Masoquista
caracterizada por:
- Sentimentos de culpa
- Inflexão interna da agressividade
- Desculpabilização do objecto
- Idealização do objecto
- Identificação projectiva patológica (projecção das partes boas do self)
- Introjecção maligna, ou seja, apropriação das partes negativas do objecto (sobretudo as injunções culpabilizantes emitidas pelo objecto.
(este tipo de depressão está relacionada sobretudo com as culturas do pecado)
Esta vivência afectiva íntima é determinada, predominantemente, por sentimentos de culpa (sobretudo inconscientes) e de auto-acusação.
O indivíduo atribui a si mesmo aresponsabilidade da oerda do amor doobjecto, como resultado da sua agressividade ou ataques hostis que na realiadade ou fantasia dirigiu ao objecto.
Alguma quota da agressividade sádica é recrutada ao nível da relação que decorre no período da fase anal.
O objecto primário caracteriza-se por ser pouco gratificante, frustrante e severo, levando a criança a reagir com hostilidade. Assim, o sujeito desta relação vive debaixo de umimpério de intenso, para não dizer completo domínio (ex: “quando saí de casa, minha mãe ensinou-me a escrever no final das cartas,- do filho muito amigo e obrigado”).
Todo o processo que leva á culpa é também designado por Coimbra de Matos, por depressão masoquista, em virtude de o sujeito, face à agressividade do objecto, e por receio de abandono ou perda de amor de que tanto carece, assumir uma atitude “complementar” à do objecto, isto é, de submissão e sujeição à sua agressividade.
No texto é referido sumariamente outro tipo de depressão (sem estrutura depressiva) que é a Depressão de Inutilidade/ Psicótica
Caracterizada por:
- Perda total do objecto
- Buraco depressivo
- O objecto não é investido, e portanto, sem investimento afectivo.
O Funcionamento Depressivo
Existem três aspectos centrais no funcionamento depressivo, são eles:
- O investimento ICS no objecto de amor perdido (não se aceita a perda do objecto)
- A compensação narcísea e o curto-circuito da erotização da relação (negação da perda do objecto)
- A reparação patológica (tranforma o objecto perdido noutro idealizado).
O Investimento ICS do Objecto Libidinal Perdido
Ou seja, a representação do objecto perdido continua a ser inconscientemente investida, enquanto objecto de amor.
O objecto libidinal continua vivo no ICS libidinal, quando na realidade ele é um objecto perdido.
Este investimento envolve uma grande quantidade de energia libidinal, daí resulta:
- Retirada do investimento da energia libidinal no mundo objectal real/concreto
- Empobrecimento do Eu
- A impossíbilidade de fazer o luto desse objecto ideal (mas perdido) o que perpetua a fixação e a regressão (característica do estilo relacional oral)
Compensação Narcísica/erotização do contacto
Já foi visto mais atrás que o depressivo sofre de insegurança narcísica; esta é uma insuficiência difícil de viver. Daí que o depressivo esconda os seus sentimentos de inerioridade e oponha resistência a mostrar a sua ferida narcísica.
Face às dificuldades que sente em relacionar-se o depressivo erotiza o contacto.
Com a erotização do contacto há como que a negação da perda do amor do objecto (seja ele objecto primário ou edipiano). Logo, a ansiedade que o contacto provoca é erotizada _ esta erotização é uma espécie de mecanismo anti-depressivo.
Através da erotização há uma tentativa de negar a perda do objecto. Segundo, o Dr. Coimbra de Matos: falha do amor do objecto primário e/ou edipiano será a causa principal do sofrimento depressivo.
A erotização do contacto é uma “pseudo-recuperação” objectal – forma de iludir a depressão, mas que acaba por falhar e provoca o adiamento da saída da depressão, isto porque adia a elaboração do afecto depressivo, impossibilita o sujeito de fazer o luto da relação.
Não fazendo o luto da relação o sujeito fica impossibilitado de conquistar um novo objecto; de organizar uma nova relação objectal.
Reparação patológica
A reparação patológica consiste na transformação do objecto abandonante/frustrante, num objecto idealizado (ao idealizar o objecto o sujeito procura não sentir o abandono afectivo).
Incialmente há uma perda do amor do objecto. A vivência de abandono afectivo – real ou fantasiado – é negada.
Num segundo tempo, o objecto é idealizado (esta idealização funciona como reparação do objecto) mas é uma reparação patológica, porque vai muito além do dano que o sujeito provocou no objecto com a sua agressividade.
Num terceiro momento dá-se o investimento ICS na representação do objecto: em que a libido se fixa no objecto idealizado perdido (O.I.P).
Na depressão é o objecto ideal que é investido e não o objecto real.