
Autismo Infantil
O espectro do autismo engloba quadros fenomenologicamente bastante diferentes, embora possamos definir um núcleo que caracteriza o fenómeno autístico. Deste modo, este fenómeno apresenta:
Incapacidade para comunicar e incompreensão em relação aos outros, que são sentidos como intrusos e perturbadores – evitamento do olhar, ausência de angústia do estranho, incapacidade de empatia.
Segundo Salgueiro, todos os outros sintomas são tentativas de obviar esta falha, ou seja, são vias alternativas de desenvolvimento quando a capacidade para a comunicação rica está ausente. A diversidade das formas observadas torna difícil a definição do autismo. Segundo Malry, Sauvage, Lenoir e Perrot, aparecem fundamentalmente sintomas nas seguintes áreas:
Linguagem e Comunicação
- Ausência de intenção comunicativa (a criança não aponta os objectos com o dedo, não faz o gesto de adeus, não apresenta mímica de alegria, surpresa ou medo, as suas expressões faciais são pobres e os sorrisos são raros)
- Ausência de expressão de emoções ou expressão desadequada (a criança chora ou ri em situações em que tal comportamento é perfeitamente inesperado, sem que haja possibilidade de a acalmar; apresenta reacções incompreensíveis de angústia, cólera e agressividade dirigida para os outros ou para si mesma; ausência de compreensão dos modos de comunicação verbal e não verbal dos outros; inacessibilidade do humor)
- Reacções emocionais estranhas (a criança não manifesta qualquer dos sinais de desprazer normais na sua idade: quando é deixada sozinha, fica imóvel e de olhos abertos, porém, qualquer mudança desorganiza-a e desencadeia facilmente violentas crises emocionais)
- Atrasos profundos nas funções de comunicação e/ou aquisição de formas desviantes de comunicação
- Linguagem ausente ou ecolálica – a linguagem enquanto forma de comunicação implica uma valorização do outro que não existe na criança autista (a criança não reage de forma particular à voz da mãe)
Relação com as pessoas e com os objectos
- Retraimento autístico (incapacidade para estabelecer relações interpessoais; pouco interesse pelos objectos humanos e interesse centrado nos estímulos sensório-perceptivos primitivos e isolados)
- Refúgio num universo sensório-perceptivo repetitivo, mas necessário (a perturbação deste universo afecta o sentimento de equilíbrio e preenchimento da criança)
- Evitamento do contacto – olhar vazio, estranho e fugidio
- Procura de novas fontes de estimulação, que acabam por conduzir à construção da cápsula autista, auto-gerada (porque a criança autista não tem o sentimento de self) e sensorial, que diminui ainda mais a possibilidade de estabelecimento de comunicação – a criança não recorre ao outro numa situação de medo, mas protege-se através das suas próprias sensações corporais
- Ausência de empatia
- Ausência de partilha de actividades e interesses
- Utilização dos objectos de forma não habitual
Modulação sensorial e motricidade
- Desenvolvimento psicomotor muito variável – se algumas crianças apresentam um desenvolvimento atípico, outras adquirem rapidamente autonomia motora e são muito ágeis em termos de motricidade global e fina
- Ausência de resposta ou resposta paradoxal aos sons
- Posturas corporais não habituais e comportamento bizarro, ritualístico e compulsivo, o qual tem o objectivo de auto-controlo e controlo do meio
- Todas as modalidades sensoriais podem estar afectadas de uma forma hipo ou hipertónica
- Atenção dificilmente captável
- Ausência de actividade auto-erótica
Funções Intelectuais
- As performances cognitivas são variáveis : as que dependem da capacidade visuo-espacial e da memória são geralmente melhores do que as que requerem a reflexão, especialmente ao nível do contexto social
- Estratégias idiossincráticas de aprendizagem
- A construção do mundo parece ter lugar, mas segue eixos de referência diferentes das outras crianças (segundo Diatkine, a utilização do tempo é diferente e o espaço investido é um espaço sem profundidade temporal, marcado pelo interesse pelas partes do corpo próprio e por movimentos repetitivos dos dedos e dos objectos, espaço este mais estruturado do que o mundo exterior, aberto e instável, no qual a criança se encontra)
As relações que estas crianças chegam a estabelecer não são verdadeiras relações de apego, mas sim de rotina – a criança relaciona-se com as pessoas tal como se relaciona com os objectos, havendo um contiguidade entre estes e o self. De facto, a criança é extremamente sensível às flutuações do humor da mãe, detectando-as e reagindo a elas com raiva. Neste sentido, não existe empatia, apenas uma reacção às modificações do meio que a envolve, que normalmente é seguida de uma passagem abrupta de um estado de raiva para um de indiferença. Assim, há um quase evitamento da relação humana em que o outro aparece enquanto tal.
O seu comportamento em relação aos outros seres humanos é dificilmente interpretável: por vezes, o evitamento do olhar parece uma fuga activa, outras vezes uma não construção do objecto materno; por vezes, a criança trata partes do próprio corpo e do dos outros como objectos inanimados. O autismo não compreende nem ausência, nem presença do outro, logo, parece não haver representação do objecto; consequentemente, não há desenvolvimento do imaginário, não há história pessoal, não há espaço psíquico (Diatkine).
A criança autista é como uma fortaleza vazia (Bruno Bettelheim), reagindo àquilo que ela interpreta como sendo a ausência de sentimentos positivos do meio envolvente em relação a ela.
Se a angústia do recém-nascido tem a ver com uma angústia de queda sem fim(Winnicott), podemos especular que a criança autista não conseguiu utilizar o suporte familiar de modo a neutralizar tal angústia.
O Objecto Autístico
Segundo Tustin, a criança autista sente-se equacionada com o seu objecto autístico, ou seja, não se identifica com ele, isto porque o objecto não é diferenciado do próprio corpo. Estas crianças vivem num mundo bidimensional, dividido em sensações moles e sensações duras. Esta utilização protectora das sensações impede a utilização dos objectos de acordo com as suas funções, isto é, impede o brincar tal como aparece nas crianças normais.
Para estas crianças, a mãe é apenas mais um objecto, com o qual se sentem equacionadas, num estado patológico de “at-oneness”.