
A saúde e o crescimento mental resultam da relação sanígena e desenvolutiva com objectos sãos e expansivos; a doença resulta, portanto, da relação de constrangimento com objectos patológicos e patogénicos, uns e outros externos e interiorizados (sendo que são estes últimos os mais significativos, quer para o bem, quer para o mal).
O self é uma estrutura dinâmica em busca de relação com o objecto, sendo em face da responsividade deste que se vai organizar o estilo ou sistema relacional. Em sistema aberto e expansivo, se a resposta é favorável ao desenvolvimento, isto é, quando o self é reconhecido na sua realidade de impotência, desamparo e dependência, bem como é amado e apreciado como é; em sistema fechado e de constrangimento, se é frustrado na sua necessidade, desejo e apelo à compreensão alargada e resposta oportuna, adequada e harmoniosa.
Tipos de funcionamento mental perturbado
Existem fundamentalmente dois tipos de funcionamento mental perturbado:
- o funcionamento esquizo-paranóide ou esquizóide (também denominado por alguns autores funcionamento narcísico ou autístico)
- o funcionamento depressivo (também denominado por alguns autores funcionamento objectal)
Na evolução normal, o funcionamento esquizóide é mais precoce, porém, não é substituído pelo funcionamento depressivo; na verdade, ambos persistem paralelamente ao longo da vida da pessoa. Assim, oscilamos de um funcionamento para outro; na doença mental, há um predomínio de um deles sobre o outro e, consequentemente, um exagero das suas características.
Vinculação e desvinculação
O conflito primordial é entre vinculação e desvinculação, investimento e não-investimento – é este o estado de pré-ambivalência do self, aprisionado num conflito de ambitendência original, isto é, de busca e recusa do objecto. No conflito esquizóide, está ausente a agressividade, não existindo ambivalência, mas ambitendência: o self desliga-se e retira-se da realidade, daí que o funcionamento esquizóide implique um menor contacto com a realidade.
Desde o início da vida mental, o bebé relaciona-se com o mundo e com os objectos que fazem parte desse mundo esperando deles a satisfação das suas necessidades, o que nem sempre acontece. Assim, o bebé vive desde início numa oscilação entre satisfação e frustração. Quando as suas necessidades são frustradas, há uma retirada esquizóide (também chamada por alguns autores retirada autística, psicótica ou narcísica), ou seja, o bebé retira-se da relação e deixa de investir o objecto materno. É importante discernir que este não-investimento não é um desinvestimento, isto porque é um processo fundamentalmente passivo, ao contrário do desinvestimento, que implica um processo activo.
Neste sentido, há uma diminuição do contacto com a realidade, logo, acontece uma introversão. Mas neste processo, há também uma perda do eu. Na verdade, quando o indivíduo investe um objecto, inevitavelmente parte de si é projectada nesse objecto. Logo, quando o bebé deixa de investir no objecto materno, todos os seus interesses, desejos e fantasias ficam nesse objecto, isto porque o bebé verte-se no objecto e esvazia-se na relação com ele. Nesta medida, a restrição do contacto com a realidade é acompanhada de uma diminuição das próprias experiências internas – não há só uma perda da realidade, como também há uma perda do eu.
Na verdade, na esquizoidia, o bom objecto interno quase não se constitui ou é apagado, enquanto que na melancolia o objecto idealizado preenche um espaço importante no mundo interno, sendo alvo de um poderoso investimento libidinal inconsciente. Guardado no santuário dos ídolos, o objecto idealizado perdido capta a maior parte da líbido do self, que assim fica presa num circuito interno. «Esta é a retirada depressiva, para um mundo de uma certa felicidade interior; a retirada psicótica faz-se para o frio e para o vazio, para o silêncio arrepiante do cemitério» (A. Coimbra de Matos).
No indivíduo adulto
No indivíduo adulto, a não ser que funcione num registo totalmente esquizo-paranóide, essa perda do eu, embora aconteça, é diminuída. Essencialmente, isto está ligado à distinção entre identificação primária e secundária. No bebé, há um processo de identificação massiva, na qual a criança investe os actos em que a relação com o objecto se funda e não o objecto em si mesmo.
Na realidade, o que inicialmente liga o bebé à mãe é fundamentalmente o cheiro. Françoise Dolto afirma que as sensações digestivas estão associadas a percepções sensoriais repetidas em cada refeição, nomeadamente o cheiro da mãe. Certo bebé recém-nascido, separado da mãe há três dias, recusava qualquer alimento, embora estivesse esfomeado. O acto de abrir a boca à procura do seio só foi recuperado aquando da aproximação de um biberão envolvido num pano que tinha estado recentemente em contacto com o corpo da mãe.
Assim, na identificação primária, não há reconhecimento de que o objecto é diferente do sujeito; a identificação secundária só acontece quando há esse reconhecimento. No adulto, há identificação com o objecto e exploração dessas zonas de identificação, mas também há o reconhecimento de que, no fundo, sujeito e objecto são entes radicalmente diferentes. Assim, aquando da perda do objecto, a perda do eu é diminuída.
Funcionamento depressivo
Ao contrário do funcionamento esquizóide, no funcionamento depressivo, quando há frustração na relação, o sujeito revolta-se contra o objecto frustrante, desejando castigá-lo. Isto acontece porque, enquanto que, no funcionamento esquizóide, as representações internas do objecto são pouco nítidas, no funcionamento depressivo, as representações do mundo frustrante são guardadas, ou seja, há uma introjecção dos objectos bom e mau. No funcionamento esquizóide, ainda não houve introjecção do objecto e as suas representações, sendo débeis, desaparecem facilmente, não havendo grandes fantasias sobre o mundo.
A clivagem do self conduz à identificação projectiva e à dispersão, ao esvaziamento e à desidentificação, ao sentimento de vazio e inutilidade, ao terror sem nome. O objecto clivado tem um destino extra-territorial, sendo projectado para fora da relação privilegiada – «são deuses e monstros que pairam nos arrabaldes do self» (A. Coimbra de Matos). Com eles conglomeradas, estão partes do self saturadas de agressão e líbido, formando os objectos bizarros de que falava Bion. O mundo interno do psicótico é, então, vazio, solitário e estéril.
No funcionamento depressivo, há um afastamento do objecto real, mas acompanhado da conservação interna da sua representação. Por seu lado, o destino do mau objecto é duplo – em parte, é introjectado orbitalmente, constituindo o mau objecto interiorizado; em parte, é introjectado nuclearmente (introjecção maligna ou introjecção da malignidade do objecto).
Ambivalência, entre o amor e o ódio
Neste sentido, o conflito melancólico é um conflito de ambivalência, entre o amor e o ódio, mamar ou morder o seio. O depressivo vive na nostalgia do objecto de amor perdido, objecto único, imprescindível e insubstituível; mas impossível porque perdido e porque danoso, na medida em que é desamante, culpabilizante e desvalorizante. O impasse depressivo (nem outro objecto, nem o mesmo) decorre da ambiguidade do objecto concebido como ideal e sentido como malévolo.
Ambas as representações boas e más são sujeitas ao recalcamento – o objecto mau fica na «câmara dos demónios», enquanto que o objecto bom fica no «santuário das idealizações». Assim, o depressivo continua em contacto com o real, porém, as dificuldades relacionais serão bastantes, na medida em que continua fixado no objecto ideal, logo, os objectos reais são decepcionantes.
Na melancolia, o mau objecto é interiorizado e recalcado, sendo, portanto, internalizado o conflito agressivo com o objecto – a preponderância da relação de mau objecto caracteriza o seu mundo interno, relação sado-masoquista que será sepultada no poço dos demónios. Mas esta relação continua a consumir o self. Neste sentido, o depressivo vive num mundo interno saturado de objectos idolatrados e malévolos; habita um mundo saturado pelo investimento dos bons objectos e pelo contra-investimento dos maus objectos, ou seja, vive ocupado com a reparação objectal e o controlo da agressão.
Resumindo, os conceitos de posição esquizo-paranóide e posição depressiva aparecem, então, como indicação de dois complexos movimentos de desenvolvimento, caracterizados por vários afectos, sentimentos e fantasias, as quais estruturam a relação da criança com a mãe e organizam o seu mundo interno. A clivagem do Eu, a identificação projectiva de partes cruéis, sádicas e destrutivas do objecto, a introjecção das partes idealizadas da imagem genital, a omnipotência do pensamento, a negação, a idealização do objecto, são tudo processos que dominam na primeira posição, na qual prevalecem, dada a própria natureza dos afectos em jogo, os sentimentos de culpa e as angústias persecutórios. Neste momento, entra em jogo a qualidade da mãe, que deverá ser «suficientemente boa» (Winnicott) ou «capaz de rêverie» (Bion), a ponto de permitir à criança a metabolização dessas ânsias.
Passagem maturativa essencial da criança
O aparecimento da posição depressiva assinala a passagem maturativa essencial da criança, que poderá passar a viver a mãe como objecto total e encontrar-se em posição de se preocupar com os ataques que, em fantasias, lançou sobre o seu corpo e contra os objectos. Nesta nova posição, a culpa e a angústia são depressivas e permitirão que a criança tolere a falta do objecto e que tenha a possibilidade de o representar. Neste sentido, completar-se-á o processo de simbolização e desenvolver-se-á a linguagem; por outro lado, a perda do objecto levará a criança a introjectá-lo e a colocá-lo dentro de si, integrando-o num super-eu tardio que divergirá do super-eu precoce. Todavia, isto não impedirá a criança de conservar as anteriores experiências persecutórias pré-verbais, que, em parte recalcadas, continuarão a influenciar o inconsciente. Forçarão o adulto, em virtude das suas partes infantis continuamente operantes nele, a viver sentimentos pertencentes à primeira posição que nem sempre podem ser comunicados verbalmente, e dos quais o terapeuta só se consegue aperceber através da contra-transferência.
O funcionamento depressivo está do outro lado da barreira, na parte neurótica da personalidade, enquanto que o funcionamento esquizóide está na porção psicótica da personalidade; quando há perda de objecto, um deprime, outro colapsa. O psicótico é o pobre que sempre foi pobre e o depressivo é o rico que empobreceu, donde lhe vem a nostalgia sem nome e a saudade sem objecto.
Assim, «a nossa vida mental apresenta ininterruptas oscilações entre situações persecutórias e situações depressivas, com as respectivas culpas e angústias: angústias que somos forçados a elaborar continuamente para evitar que as imagens do nosso mundo interno, perdidas as suas qualidades tolerante e protectoras, deixem de ser os nossos ideais de vida e se transformem em diabos inspiradores das nossas angústias de morte» (Mauro Mancia).
Angústia | Relação de Objecto | Mecanismos de Defesa | Sintomatologia |
Fragmentação | Fusional |
| Psicose |
Perda de Objecto | Anaclítica |
| Borderline |
Castração | Genital ou Triangular |
| Neurose |