
Dedicou-se à observação de crianças e do seu relacionamento com as respectivas mães. Como consequência disso acabou por decompor o desenvolvimento infantil e adolescente em três períodos distintos, que começavam na 1ª infância e iam até à adolescência.
1º Período – Autismo Primário
É a fase em que o bebé está encerrado sobre si próprio e não comunica com ninguém, nem com o mundo externo. É uma fase anobjectal, onde não há relação de objecto. A evolução para a fase seguinte é conseguida mediante o self materno, que lhe dá a conhecer o mundo, a realidade exterior e os estímulos desconhecidos, e da maternage, ou seja, os cuidados básicos de sobrevivência para o bebé.
Este primeiro período tem como objectivo permitir a compreensão de um grupo de doenças designadas por autismo e que ocorrem em circunstâncias particulares, caracterizadas, sobretudo, por indivíduos fixados no seu mundo interno, não sendo capazes de comunicar com o meio. Apresentam, muitas vezes, comportamentos e movimentos estereotipados: bater repetidamente com partes do corpo (braços, cabeça) contra as paredes etc. Durante muito tempo, pensou-se que o autismo era uma doença exclusivamente psicológica. Hoje sabe-se que, através de autopsias, que os autistas têm lesões no lobo temporal caracterizados pela diminuição da substância cinzenta.
2º Período – Simbiose Normal
Criança e a mãe formam uma unidade indivisível, na qual o bebé depende totalmente da mãe, enquanto que a dependência desta é relativa. No princípio a mãe não é entendida como um objecto, mas depois passa a ser alvo de investimentos, pois já é reconhecida como um objecto, ainda que parcial. Quando a fase simbiótica termina, já há uma relação objectal entre ambos. A imagem da “mãe suficientemente boa” de Winnicott é mantida na teoria de Mahler, ou seja, com um padrão de sustentação adequado para as necessidades do bebé.
Do ponto de vista biológico esta fase parte de um pressuposto errado. Um parasita não pode viver sem o hospedeiro e vice-versa, mas, no entanto, isso não acontece nos humanos, logo no caso de um morrer o outro é capaz de sobreviver.
3º Período – Separação e Individuação
Subdivide-se em 4 sub fases: diferenciação, marcha, aproximação, constância objectal e emocional e consolidação da individuação. Todas elas têm uma modalidade de vínculo objectal e com metas próprias.
O marco desta fase é o fenómeno da marcha, isto é, o momento em que as crianças se podem afastar das mães, permitindo-lhes individualizar-se e tornarem-se delas distintas. A criança pode partir para explorar o meio mas, no momento seguinte, volta para junto da mãe para se certificar que ela continua lá e que não lhe causou danos, nem a ela nem a si próprio. A criança procura manter, por isso, uma constância de relação.
A classificação de Mahler permitiu a compreensão dinâmica das doenças mentais. No 1º período o que não está formado é a representação do objecto e isso é o que sucede nas psicoses, em que o objecto primário não existe. Por consequência, não existe também uma identidade própria nesses doentes (esquizofrénicos).
No 2º período em que há sempre a necessidade do outro ou de algo para que a pessoa mantenha uma relação – Está-se no campo das neuroses em que, por exemplo, nas neuroses histéricas (de reconversão ou dissociativas) é sempre preciso a presença de objecto que permita o melhor funcionamento do ego. Ou seja, não é o ego substitutivo, mas algo que seja forte de afecto para o neurótico e que o ajude.
O 3º período pensava-se que ficasse resolvido na adolescência, mas é um período que sofre muitas vicissitudes e a separação/individuação pode ser adiada e ocorrer apenas na 5ª, 6ª década de vida.