
Três noções importantes no estudo da depressão
1. Depressão reactiva ou depressibilidade – capacidade para se deprimir e fazer o trabalho de luto
2. Depressão patológica – baseia-se em relações objectais predominantemente narcísicas e é quase sistematicamente uma reactivação de uma depressão infantil (se não tiver havido perdas afectivas na infância, a auto-estima será suficientemente forte e consolidada)
3. Depressividade ou depressão narcísica – condição psíquica de certo abatimento, algum desespero e dificuldade de investimento da acção, resultante de uma excessiva submissão ao objecto e nostalgia do objecto idealizado perdido
Nos sujeitos depressivos, encontramos um objecto primário controlador, mas bastante admirado pelo sujeito porque também é caloroso, solícito e dedicado; deste sistema relacional, resulta a formação de um supereu precoce e esmagador da actividade espontânea do indivíduo e uma relação de idealização e de amor, que impede toda a tentativa de o expulsar da mundo interno, também porque esse objecto é reassegurador do narcisismo do sujeito e propulsor de uma auto-afirmação sem limites em relação ao mundo e aos outros.
Assim, encontramos nestes sujeito uma relação de submissão e apreço com um supereu esmagador e um ideal do eu megalómano, já que o eu está numa identificação alienante com o objecto. Este objecto tem como traços característicos o masoquismo (exibindo o seu estatuto e condição de vítima) e a ambivalência (atitude de protecção e afecto contrastando com sentimentos de saturação emocional e rejeição). Assim, a história modelo de uma personalidade depressiva é a seguinte:
1. depressão pré-edipiana dada a carência afectiva muito precoce (que explica os sentimentos de desamparo, desespero, vazio e solidão e que deixa falhas narcísicas e na identificação primária e uma avidez que desencadeia fantasias omnipotentes de compensação)
2. período de separação-individuação marcado por uma submissão masoquista (que conduz à organização de um introjecto maligno, contra o qual se dirige uma enorme agressividade, que reflui sobre o self)
3. decepção edipiana intensa (que a experiência anterior prepara – dada a ferida narcísica, a avidez, a omnipotência da fantasia e do desejo -; logo, o sujeito vira-se para a relação com o segundo objecto de referência procurando colmatar a deficiência na relação com o primeiro objecto; isto explica a convicção da castração)
4.dificuldade em investir objectos infantis e adolescentes da mesma idade
5. decepção nos amores da infância e da adolescência (quase inevitável pelo tipo de relação fóbica, mas ao mesmo tempo idealizada, que se forjou)
6. impossibilidade de um amor adulto suficientemente descontextualizado, que provoca uma relação amorosa adulta insatisfatória (o objecto sexual é confundido com o objecto anaclítico – de amor passivo e infantil – e o sujeito, que julga amar, apenas pede para ser amado, porque está vazio e impotente; o amor é confundido com o desejo de reparação narcísica)
Em termos fenomenológicos, podemos dizer que os dois sintomas essenciais da depressão são o abatimento e o sentimento de inferioridade. Assim, podemos distinguir a depressão simples (em que só se observa uma diminuição da vitalidade) da depressão de inferioridade (em que os sentimentos de inferioridade se tornam mais visíveis) e da depressão de culpa (em que predominam os sentimentos de culpa, resultantes do esmagamento do eu pelo introjecto maligno). Embora se possam distinguir estes três tipos de depressão, na prática estão entrelaçados, apenas podendo ser mais ou menos evidentes consoante o caso concreto.
A culpa e os sentimentos de inferioridade advém de uma racionalização, isto é, de uma tentativa que o sujeito faz para encontrar uma explicação para o abandono afectivo. A culpa patológica resulta também da culpa induzida pelo agressor, incutida por este na vítima por um processo de identificação projectiva patológica e evacuativa (identificação imagoico-imagética, ou seja, identificação à imago e/ou imagem que o outro atribui ao sujeito).
Assim, enquanto que, na depressão normal, o sujeito desvaloriza o objecto, na depressão patológica, há uma intensa auto-desvalorização, a qual é facilitada pela dependência em relação ao objecto (inflexão da agressividade, movimento patológico e patogénico, mórbido e morbígeno). Neste sentido, o indivíduo depressivo é muito susceptível, isto porque na infância lhe foram induzidos por pais desamantes sentimentos de culpa e de inferioridade, os quais são agravados quando sofre uma perda afectiva na vida adulta. Estes indivíduos estabelecem modalidades de relação em que dão mais do que recebem – economia depressígena -, o que caracteriza e ao mesmo tempo gera a depressão.
A criança necessita de um amor oblativo, em que recebe mais do que dá, sendo isto essencial para a construção da auto-estima. Pelo contrário, pais narcísicos e desnarcisantes oferecem um amor captativo, em que amam para serem amados – estas mães narcísicas e desnarcisantes, elas próprias insatisfeitas e frustradas, investem compensatoriamente os filhos, tornando-se hiper-estimulantes e, ao mesmo tempo, hiper-exigentes em retribuição afectiva, exigência à qual a criança ainda não pode responder por incapacidade e imaturidade.
Ao sentirem-se frustradas, frustram os filhos, reagindo com retirada do investimento (retracção rejeitante), dúvidas sobre a fantasia de idealidade do filho (surgindo o investimento negativo da imagem deste), agressividade, desejo de controlo; enfim, envolvendo-os numa relação contraditória de estimulação – frustração e, secundariamente, numa relação sado-masoquista e culpabilizante.
A isto se chama o investimento narcísico do objecto, em que este é investido como fonte de carga narcísica, ou seja, o objecto é utilizado como uma função do eu e como parte do self. Na catexia narcísica do objecto, este só é reconhecido, apreciado, admirado e desejado enquanto é sentido como idêntico e unido ao sujeito, sem vontade própria nem diferente; assim, quando a criança mostra o seu querer (frequentemente, na fase anal), é abandonada afectivamente. Esta relação de objecto narcísica, longe de criar um bom narcisismo, condiciona uma insuficiência narcísica dificilmente reparável; pelo contrário, o sentimento de plenitude narcísica constitui-se no normal investimento da criança pela mãe.
É o investimento objectal de tipo narcísico que está na base da estrutura depressiva da personalidade – deste modo, a perda do objecto é acompanhada de uma dor dificilmente reparável, pois o indivíduo perde também uma parte de si próprio. Organiza-se, então, uma conduta de abandonado – abandonante, que não se trata propriamente de um abandono sofrido, mas de um receio de ser abandonado. A luta defensiva contra a depressividade vai realizar-se à custa de dois contra-investimentos: constrangimento do investimento narcísico (com apatia, desinteresse por si próprio, afundamento vivencial); e, por vezes, reinvestimento narcísico de cobertura, de tipo caracterial (imagens de compensação narcísica, traços comportamentais narcísicos, personalidade narcísica).
Na depressão, há uma perda no concreto dos objectos idealizados, mas uma persistência desses mesmos objectos na fantasia, o que impede a sua expulsão através da libertação da agressividade a eles relacionada, mas inflectida sobre o próprio e/ou transferida para objectos externos. «No recôndito da sua alma, habitam, mortos-vivos, esses objectos da infância e da adolescência, fortemente investidos e idealizados, que impedem uma normal catexia no mundo actual». É precisamente o reconhecimento dessa idealização deformante que abre caminho à necessária ruptura dos laços afectivos e à libertação desse mundo de fantasmas. É típico destes casos a riqueza inflacionada do fantasma e do projecto, contrastando com a desilusão colhida na concretização.
O processo depressivo organiza-se num jogo projectivo-introjectivo de efeitos perversos: projecção da idealidade e introjecção nuclear da malignidade, assim como desculpabilização do objecto e inculpação do próprio (defesa moral, segundo Fairbairn), donde decorre a inflexão da agressividade; concomitantemente, há uma introjecção orbital do objecto crítico, frustrante pela sua incompletude e insuficiência, constituindo o supereu sádico. Nesta medida, o depressivo tem dificuldade em mudar de objecto, mas também de objectivo: de passar do amor infantil para o amor maduro. Assim, temos o seguinte esquema que diz respeito ao núcleo depressivo da personalidade:

A depressão atravessa toda a psicopatologia, de acordo com a cronologia da incidência do trauma: quando a memória do reconhecimento ainda é parcelar e precária, a perda provoca desorganização mental, confusão e desrealização; se já há memória de evocação, a perda tende a gerar depressão («hopelessness» – sentimento de ausência de esperança); se há memória de reconhecimento e não de evocação, é mais provável e depressão borderline («helplessness» – angústia de separação e sentimento de desamparo).
Tratamento da depressão
O tratamento da depressão enquanto revolução transformadora do self e do objecto passa fundamentalmente por uma compreensão da patologia dos pais, incidindo sobre vários aspectos:
- saída da economia depressiva e depressígena
- mais reparação narcísica e menos reparação objectal
- deflexão da agressividade com desculpabilização do próprio e inculpação do objecto depressígeno
- desvalorização do objecto e recuperação da idealidade perdida na idealização do objecto
- desidentificação progressiva ao objecto introjectado e identificação à função analisante do analista (o defeito básico é preenchido com a substância básica do analista dada a qualidade da sua presença regular, acolhedora e indestrutível)
- recuperação da líbido consumida no investimento do objecto idealizado perdido
- alteração progressiva da dominância dos loci externos de regulação da auto-estima em favor do reforço do locus interno (ou seja, diminuição do narcisismo dependente e desenvolvimento do narcisismo autárcico)
- sobreposição da identificação idiomórfica (auto-reconhecimento) à identificação alotriomórfica (reconhecimento por outrém)
- substituição do princípio da moral pelo princípio da responsabilidade (a moral torna-se cada vez mais endógena e autónoma)
- substituição da culpa e da vergonha pelo respeito pelo outro e dignidade pessoal
- progressiva ampliação do contacto com a realidade, o que vai a par com uma expansão da mente